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Menopausa, qual a conduta além da reposição hormonal?

A TRH é ferramenta central, mas conduta de transição não é receita de estrogênio, é leitura de rede. Progesterona e GABA no sono, estrogênio e serotonina no humor, insulina mudando de comportamento, tireoide imitando sintomas, ferro, D e B12 como cofatores, e as medicações que a paciente já toma interagindo com tudo. Quem trata só o hormônio trata metade da mulher.

A menopausa virou território de dois reducionismos: o antigo, que nega tudo ("é da idade, aceita"), e o novo, que resolve tudo com implante. Os dois erram no mesmo lugar: tratam a transição como evento de um hormônio só, quando ela é a reconfiguração de uma rede inteira.

O que as diretrizes dizem, sem caricatura

As posições atuais da NAMS (The Menopause Society), da IMS e da FEBRASGO convergem: pra mulher sintomática, sem contraindicação, dentro da janela de oportunidade (em geral antes dos 60 anos ou nos primeiros 10 anos de pós-menopausa), a terapia hormonal é o tratamento mais eficaz pros sintomas vasomotores e geniturinários, com relação risco-benefício favorável na maioria. Individualização de via, dose e regime é a regra: estrogênio transdérmico ganha preferência em perfis de risco trombótico, progesterona é obrigatória em útero presente. E o diagnóstico da transição em mulher acima de 45 com ciclo irregular e sintomas típicos é clínico: FSH tem papel na dúvida (menos de 45 anos, menopausa precoce, histerectomizada), não na rotina, porque na perimenopausa ele oscila e engana.

O que as diretrizes NÃO dizem: que implante de rotina é padrão, que testosterona é indicada pra "energia" (o consenso global restringe a indicação ao desejo sexual hipoativo pós-menopausa), ou que sintoma não-vasomotor dispensa investigação própria.

A rede da transição, elo por elo

  • •Progesterona → GABA. A alopregnanolona, metabólito da progesterona, é modulador GABAérgico: o calmante endógeno. É o primeiro elo a cair, anos antes da última menstruação, e explica a insônia com despertar às 3h e a ansiedade "do nada" da perimenopausa. Tratar essa insônia só com indutor é silenciar o alarme com o incêndio aceso.
  • •Estrogênio → serotonina e cognição. O estradiol modula síntese e receptores serotoninérgicos. A oscilação (mais que a queda) produz humor instável e a névoa que a paciente descreve como "não sou mais eu". Quantas saem com antidepressivo sem ninguém perguntar do ciclo?
  • •Insulina muda de comportamento. A queda estrogênica piora sensibilidade insulínica e redistribui gordura pro abdome. A paciente que "engordou sem mudar nada" está contando a verdade fisiológica.
  • •Tireoide, a grande imitadora, com pico de incidência exatamente nessa faixa etária e sexo. TSH e T4 livre são obrigatórios antes de atribuir o quadro ao climatério.
  • •Cofatores: ferritina (os sangramentos irregulares da perimenopausa depletam ferro), vitamina D (osso, humor, insulina), B12 e magnésio.

O algoritmo que eu sigo

1. Linha do tempo dos sintomas contra a história menstrual: o que começou junto com o ciclo mudando aponta pra transição; o que veio antes ou muito depois pede outra hipótese. 2. Descartar as imitadoras: TSH e T4 livre sempre; ferritina se sangramento ou fadiga; rastreio de apneia se sono não reparador com ronco. 3. Mapa metabólico da fase: insulina de jejum com glicose e A1c, lipídios. É a década em que o risco cardiovascular feminino muda de patamar, e a janela de intervir. 4. Avaliar TRH pela diretriz: sintomas, contraindicações, preferência, via e regime individualizados. E reavaliar periodicamente, porque indicação é filme, não foto. 5. O que a TRH não faz, prescrever junto: treino de força (a sarcopenia acelera aqui), proteína, sono, e revisão da farmácia em uso.

As interações que já moram na receita

Estrogênio ORAL eleva SHBG e derruba testosterona livre: libido tratada por uma via e piorada por ela. ISRS somando disfunção sexual à queixa que motivou a consulta. Inibidor de bomba de prótons crônico comprometendo B12 e magnésio. A anamnese farmacológica é metade do diagnóstico da mulher de 50.

Onde esta página para

O mapa e o raciocínio estão aqui. Regimes, escolha fina de moléculas e vias, manejo dos casos que fogem da regra e a condução longitudinal são matéria de formação fechada pra médicos, com a profundidade que decisão terapêutica exige.

Conduzir menopausa é reger orquestra, não afinar um instrumento. Um bom médico rege. É isso que eu ensino: Medicina Raiz.

Dr. Diego Rios

Dr. Diego Rios · CRM-PI 8347

Médico em atividade, cinco pós-graduações, mais de 1 milhão de seguidores somando as redes, construídos com método. Criador do programa Médico Referência.

O problema não é a sua medicina. É que o paciente certo não te encontra.

Competência sem visibilidade vira plantão e tabela de convênio: renda que não corrige, agenda que não enche com o paciente certo. Autoridade se constrói com método, dentro das regras do CFM, e é isso que eu ensino, porque foi isso que eu fiz.

Dr. Diego Rios, CRM-PI 8347

Conteúdo educativo para médicos. Não substitui consultoria individual nem define conduta clínica; decisões de tratamento são sempre do médico assistente diante do paciente.